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sábado, 25 de novembro de 2017

Chove. Há Silêncio

Chove. Há Silêncio
Chove. Há silêncio, porque a mesma chuva
Não faz ruído senão com sossego.
Chove. O céu dorme. Quando a alma é viúva
Do que não sabe, o sentimento é cego.
Chove. Meu ser (quem sou) renego...

Tão calma é a chuva que se solta no ar
(Nem parece de nuvens) que parece
Que não é chuva, mas um sussurrar
Que de si mesmo, ao sussurrar, se esquece.
Chove. Nada apetece...

Não paira vento, não há céu que eu sinta.
Chove longínqua e indistintamente,
Como uma coisa certa que nos minta,
Como um grande desejo que nos mente.
Chove. Nada em mim sente...

Fernando Pessoa, in "Cancioneiro"

Pick by me ferlede2017

domingo, 13 de agosto de 2017

Conserto a Palavra

Conserto a Palavra


Conserto a palavra com todos os sentidos em silêncio 
Restauro-a 
Dou-lhe um som para que ela fale por dentro 
Ilumino-a 

Ela é um candeeiro sobre a minha mesa 
Reunida numa forma comparada à lâmpada 
A um zumbido calado momentaneamente em exame 

Ela não se come como as palavras inteiras 
Mas devora-se a si mesma e restauro-a 
A partir do vómito 
Volto devagar a colocá-la na fome 

Perco-a e recupero-a como o tempo da tristeza 
Como um homem nadando para trás 
E sou uma energia para ela 

E ilumino-a 

Daniel Faria, in "Homens que São como Lugares Mal Situados" 

quinta-feira, 19 de maio de 2016

Tempo Certo


De uma coisa podemos ter certeza:
de nada adianta querer apressar as coisas;
tudo vem ao seu tempo,
dentro do prazo que lhe foi previsto.
Mas a natureza humana não é muito paciente.
Temos pressa em tudo e aí acontecem
os atropelos do destino,
aquela situação que você mesmo provoca,
por pura ansiedade de não aguardar o tempo certo. Mas alguém poderia dizer:
Qual é esse tempo certo?

Bom, basta observar os sinais.
Quando alguma coisa está para acontecer
ou chegar até sua vida,
pequenas manifestações do cotidiano
enviarão sinais indicando o caminho certo.
Pode ser a palavra de um amigo,
um texto lido, uma observação qualquer.
Mas, com certeza, o sincronismo se encarregará
de colocar você no lugar certo,
na hora certa, no momento certo,
diante da situação ou da pessoa certa. 

Basta você acreditar que nada acontece por acaso. Talvez seja por isso que você esteja
agora lendo estas linhas. 
Tente observar melhor o que está a sua volta.
Com certeza alguns desses sinais
já estão por perto e você nem os notou ainda. 
Lembre-se, que o universo sempre
conspira a seu favor quando você possui um
objetivo claro e uma disponibilidade de crescimento.

Tempo Certo

Paulo Coelho

domingo, 29 de junho de 2014

Muitas coisas cabem no silêncio

Muitas coisas cabem no silêncio
(...) Minha infância de menina sozinha deu-me duas coisas que parecem negativas, e foram sempre positivas para mim: silêncio e solidão. Essa foi sempre a área de minha vida. Área mágica, onde os caleidoscópios inventaram fabulosos mundos geométricos, onde os relógios revelaram o segredo do seu mecanismo, e as bonecas o jogo do seu olhar. Mais tarde foi nessa área que os livros se abriram, e deixaram sair suas realidades e seus sonhos, em combinação tão harmoniosa que até hoje não compreendo como se possa estabelecer uma separação entre esses dois tempos de vida, unidos como os fios de um pano."
Cecília Meireles

Fotografia by Ferlede@ junho 2014

terça-feira, 3 de junho de 2014

Árvore do Fogo

Sei lá! Sei lá! Eu sei lá bem
Quem sou? um fogo-fátuo, uma miragem...
Sou um reflexo...um canto de paisagem
Ou apenas cenário! Um vaivém

Como a sorte: hoje aqui, depois além!
Sei lá quem sou?Sei lá! Sou a roupagem
De um doido que partiu numa romagem
E nunca mais voltou! Eu sei lá quem!...

Sou um verme que um dia quis ser astro...
Uma estátua truncada de alabastro...
Uma chaga sangrenta do Senhor...

Sei lá quem sou?! Sei lá! Cumprindo os fados,
Num mundo de maldades e pecados,
Sou mais um mau, sou mais um pecador...

Florbela Espanca

Fotografia tirada na Ilha da madeira em maio de 2014: Árvore do Fogo



sexta-feira, 30 de maio de 2014

Raros Momentos

Descrição do trabalho:
Tenho fases
Tenho frases
Momentos...Vontades
Às vezes paixão
Outras saudades.
Às vezes tudo fica enorme
O mundo...os meus sonhos...as minhas asas
No quais me sinto
Pequena
Sem eira, nem beira
Me agacho no chão
Inundo-o de lágrimas
Deixo ali as frustrações
Contemplo a lua
Tento desvendar os mistérios
Busco o brilho, o fascínio
Ser como ela...
Absoluta dona de si!
Tenho fases grandiosas
Explosivas, deprimidas
Fases carentes, doentes
Fases contentes.

Pois sinceramente
Eu tenho fases...

Carolina Salcides
habilidades profissionais:
Não deixe o sentimento entardecer...
Olhe o sol...
Seu reflexo no rio
derrama toda fluidez
do coração humano!
O erro reparado
merece a desculpa.
Culpa, qual?
Pedras rolam ao léu...
Pensamentos exalam
perfumes do amanhã!
O amor não separa
repara a dor da ausência.
Juntos nos tornaremos fortes.
Ao topo do mundo
seguiremos juntos
sempre lado a lado
feito asa de borboleta!
interesses profissionais:
Somos marcados em cada encontro, seja positiva ou negativamente... Mas, hoje, prefiro falar dos encontros bons e foram muitos nos últimos tempos.



Cristas de Galo ou Flor Coral
Fotografia minha, tirada em Lisboa no dia 28 de maio de 2014.

quinta-feira, 20 de março de 2014

O Teu Olhar

O Teu Olhar
Passam no teu olhar nobres cortejos, 
Frotas, pendões ao vento sobranceiros, 
Lindos versos de antigos romanceiros, 
Céus do Oriente, em brasa, como beijos, 

Mares onde não cabem teus desejos;
Passam no teu olhar mundos inteiros,
Todo um povo de heróis e marinheiros,
Lanças nuas em rútilos lampejos;

Passam lendas e sonhos e milagres!
Passa a Índia, a visão do Infante em Sagres,
Em centelhas de crença e de certeza!

E ao sentir-se tão grande, ao ver-te assim,
Amor, julgo trazer dentro de mim
Um pedaço da terra portuguesa!

Florbela Espanca, in "A Mensageira das Violetas"

Fotografia @ Fernanda Ledesma - março 2014

quarta-feira, 14 de agosto de 2013

Poesia

Ai deixa, deixa lá que a Poesia
no perfume das flores, no quebrar
das ondas pela praia,
na alegria
das crianças que riem sem porquê
— deixa-a lá que se exprima, a Poesia.

Fica sentado aí onde estás, Poeta,
e não mexas os lábios nem os braços:
deixa-a viver em si;
não tentes segurá-la nos teus braços,
não pretendas vesti-la com palavras...

Se a queres ter,
se a queres sempre ver pairando à flor das coisas, fica aí
no teu cantinho, e nem respires, Poeta, e não te bulas,
p'ra que ela não dê por ti.

Não a faças fugir, toda assustada
com a tua presença...
Deixa-a, nua, pairando à flor das coisas,
que ela não sabe que a viste,
nem sabe que está nua,
nem sequer sabe que existe...

Sebastião da Gama - Serra-mãe