sexta-feira, 10 de outubro de 2025

Nobel da Paz: o valor simbólico da coragem

 

A nomeação de María Corina Machado para o Prémio Nobel da Paz, ainda que simbólica, representa a coragem. Se o Nobel servir para dar força moral, visibilidade e alguma proteção, já valerá bastante. É claro que não resolverá os problemas da Venezuela, mas pode contribuir para aumentar a consciência global sobre a situação no país.
Por outro lado, num contexto em que muitos países enfrentam retrocessos democráticos, esta distinção pode ser vista também como um apelo à valorização da democracia, dos direitos humanos e das eleições livres — assim como as autárquicas, por cá, no próximo domingo.



domingo, 27 de julho de 2025

#3 Era preciso contar à família

 Ainda mal conseguia verbalizar a palavra, quanto mais explicar tudo o que ela trazia consigo.

Mas já não podia adiar. Chegara o momento de contar à família, ao meu filho, depois aos meus irmãos.
Sabia que cada palavra ia cair com o peso do medo e da incerteza.
Sabia que iam sofrer — e que ver essa dor, estampada nos olhos e na voz de quem amo, me doía ainda mais.

Há coisas que não se conseguem preparar. A notícia sai aos pedaços, entre silêncios e lágrimas contidas, e o que mais custa não é o que se diz — é o que se sente no ar, naquela mistura de choque, ternura e vontade de proteger uns aos outros.

Naquele instante, percebi que a força não estava em esconder o medo, mas em deixá-lo ser partilhado. E que o amor, mesmo ferido pela dor, continua a ser o lugar mais seguro do mundo.

 



quarta-feira, 23 de julho de 2025

#2 Exames, mais exames após a notícia

 

Depois da notícia, vieram dias em que o tempo parecia andar devagar.

Seguiram-se exames, análises, esperas silenciosas. Cada resultado era aguardado com o coração apertado — entre o receio e a esperança.
A ressonância magnética, naquele túnel estreito e frio, tornou-se um símbolo de tudo o que ainda estava por descobrir. Era preciso apurar o diagnóstico, compreender o que o corpo estava a tentar dizer.

O caminho que se abriu à frente não era uma linha contínua. Era um caminho cheio de incertezas e tropeços, onde cada passo exigia força e confiança. Mas, ao mesmo tempo, foi nesse percurso que se revelaram gestos simples e preciosos: o apoio de quem está perto, a palavra certa no momento certo, a importância de parar e respirar.

Entre exames e análises, descobri que viver um dia de cada vez é mais do que uma frase feita — nesta fase é a única forma. E que mesmo nos caminhos mais difíceis, há sempre um fio de luz a guiar-nos para diante.




domingo, 20 de julho de 2025

 "A luz dourada do entardecer pinta a serra da Arrábida de magia." 


eu a snowe gostamos muito deste spot em casa 

quinta-feira, 26 de junho de 2025

#1 Hoje o meu mundo mudou

 

Disseram-me que é cancro. A palavra ficou ali, suspensa, enorme, a ocupar todo o ar da sala.

Chorei. Não gritei. Acho que nem respirei direito. Só fiquei parada. A tentar perceber se era comigo.
Mas era. É.

A médica falou sobre — exames, tratamentos, planos — mas confesso que não retive muito.

A minha cabeça ficou presa naquela palavra.
Como se fosse uma sentença. Um ponto final. Ou um parêntesis escuro onde antes havia vida.

Tive medo. Tenho. E vergonha de ter medo, como se sentir fosse fraqueza.
Pensei na minha família. Nos amigos. No que ainda quero fazer.
Senti tristeza. E muitos porquês?

Mas também pensei numa coisa estranha: estou viva.
E enquanto estiver viva, talvez ainda haja luta. Talvez ainda haja beleza.
Mesmo que hoje tudo doa.

Agora só quero dormir. Ou esquecer. Ou voltar atrás.
Mas amanhã, talvez acorde com força para perguntar:
E agora, como se vive com isto?

Boa noite, ou o que sobrar dela.
Eu


domingo, 6 de abril de 2025

Navegar

 Navegar


A rota fácil nunca serve,

Que por breve ou doce não te iluda.

De muitas pequenas pedras se faz a longa estrada

E de muito remar o mar distante.

 

Aonde corres sem saber? Porque navegas sem leme?

O amanhecer que te ilumina nunca esquece,

E não há mais caminho além de amar o mar,

Não há mais magia ou novo encanto.

 

Não existe porto ou tempo certo,

Há apenas o vento e as velas que te empurram

E a paciência, a alma aberta de quem espera a hora incerta.

E há o fim de tudo, às vezes longe, o farol da tua fé.

 

Há o teu medo, o teu pecado, como vagas que te agitam,

Há essas forças que gritam e que te fazem remar

Para o norte, contra a sorte, contra a morte,

Com ânsia de não ficares, com sede de te encontrares.       


Poema do livro: A pedra e a Flor 

do colega e amigo Jorge Silva